Homossexuais que dividem o mesmo teto por amor, heterossexuais que vivem em casas separadas por opção ou força do trabalho, casais divorciados que se mantêm unidos na educação dos filhos, mulher que sustenta o lar enquanto o marido cuida dos filhos e por aí afora. Essas e diversas outras composições familiares são cada vez mais comuns.
A organização nuclear tradicional – pai, mãe e filhos na mesma casa – se mantém, é claro. Mas, com as demandas da sociedade contemporânea, as novas formas de união ganham força e vieram para ficar. Marco e Rodrigo (nomes fictícios) são prova disso: juntos há 25 anos, já comemoram bodas de prata.
Embora assumam o amor que sentem um pelo outro, eles preferem não divulgar suas identidades para evitar desgastes ou problemas, especialmente profissionais. “Infelizmente, a cobrança social ainda é muito forte. Aos poucos, a sociedade vai progredindo e os preconceitos diminuem, mas ainda levará algum tempo para que as pessoas encarem com naturalidade a homossexualidade e outros tipos de relacionamentos”, comenta Rodrigo, 44 anos.
Para Marco, 50, os avanços já alcançados se devem, principalmente, ao poder financeiro dos homossexuais. “É uma fatia de mercado representativa. Por isso, a sociedade cedeu um pouco”, acredita.
Preconceitos à parte, o casal afirma ser uma família feliz. “O que nos prende é o amor. Por isso, construímos uma relação sólida que já dura 25 anos”, diz Marco. “O que a gente descobre na construção de um relacionamento é que a cumplicidade é essencial”, complementa Rodrigo.
Eles contam que chegaram a pensar em adotar um filho para completar a família, mas desistiram por causa do “peso social” que o ato tem quando se trata de um casal homossexual. “Mas estamos bem assim. Ele é amor da minha vida e eu sou o amor da vida dele. É isso que importa”, diz Marco, emocionado.
Mais alegre
Já Fabiano, 30, e Fabrício, 29 (nomes fictícios), sonham em adotar uma menina. Juntos há seis anos, três deles casados – com contrato de sociedade, já que a união civil de homossexuais ainda não é permitida no Brasil –, eles acreditam que uma criança irá deixará a união mais alegre.
“Pretendemos adotar nossa filha daqui uns cinco anos, quando tivermos estabilidade financeira. Queremos dar a ela uma ótima educação e muito carinho”, afirma Fabiano.
Se eles não têm medo do preconceito? “Queremos dar amor a uma criança, ter um filho como tantos outros casais. Nos amamos e queremos completar nossas vidas”, comenta Fabrício. Para Fabiano, uma família estruturada independe de orientação sexual. “O que vale é o afeto e o respeito entre as pessoas.”
Pai assume a criação dos filhos e mãe sustenta o lar
Na família de José Arnaldo Donizeti Francisco, 45 anos, que vive na Vila Universitária, ele é o “dono-de-casa”. E com orgulho.
É ele quem cuida dos dois filhos – Ana Paula, 15, e Vitor, 13 – e da maior parte das tarefas domésticas, enquanto a mulher, Lúcia Helena de Souza Francisco, 47, dedica-se à carreira de bancária.
“Quando decidimos ter filhos, optamos para que eu ficasse em casa e cuidasse da criação deles, já que o trabalho da Lúcia era mais sólido e exigia maior dedicação. Foi uma escolha sensata e consciente”, conta Francisco, que concilia o trabalho de “dono-de-casa” e pai com os serviços de edição de imagens.
Segundo Francisco, a família funciona como uma equipe. “Todos se ajudam e colaboram nos afazeres domésticos. Dá supercerto.”
Ele afirma que não troca por nada o privilégio de ter acompanhado de perto o crescimento dos filhos. “Não há coisa melhor neste mundo. Amo minha família”, diz.
Para Lúcia, a decisão do casal também foi acertada: “Trabalho desde os 17 anos e não conseguiria ficar em casa. Com certeza, ele [o marido] é muito melhor como ‘dono-de-casa’ do que eu”, brinca. A família vai bem, obrigada.
Separados, mas unidos
Após 19 anos de casamento, Leonilda Pereira Ilha de Campos, 45, a Léo, se divorciou em 2003 de José Ricardo Ilha de Campos, 43. Mas nem por isso, a família ficou desestruturada. Os dois continuam amigos e se mantêm unidos na educação dos dois filhos – Beatriz, 20, e Jonas, 18.
“Se o casamento for bom, o divórcio também ocorre numa boa. Não há porque perder o respeito e o carinho que temos um pelo outro”, diz Léo.
Afetividade é recente, diz especialista
Segundo a psicoterapeuta Marilene Krom, a afetividade é um valor recente na família. “Hoje, ele é fortemente privilegiado, assim como o casamento é responsável, em muito, pela realização afetiva e sexual.”
Ela destaca também que o os homens estão mais sensíveis e afetivos – por isso, atualmente, o papel de pai não é somente complementar o da mãe.
A psicoterapeuta afirma que, embora a instituição família ganhe novas formas, ela continua sendo responsável por assegurar os valores fundamentais da humanidade. “É nela que se realiza o crescimento integral do ser humano”, comenta.
Para Marilene, a família é um espaço sócio-cultural que deve ser continuamente renovado e reconstruído. Ela aponta que trata-se de uma organização dinâmica, que está em constante transformação devido às pressões sociais, econômicas e tecnológicas. “O divórcio, por exemplo, é uma necessidade democrática. Houve uma total desconstrução do ideal patriarcal antigo. A família é vista como necessidade social e pessoal”, analisa.
Funções da família se mantêm
“O importante é que a família seja o espaço para desenvolver a capacidade de amar e construir a cidadania. Independentemente da forma como é organizada, o fundamental é a educação para o amor, a fraternidade e a comunhão.” Esta é a definição de família para Mário José Filho, padre da congregação dos sagrados estigmas e professor do departamento de serviço social da Unesp (Universidade Estadual Paulista) em Franca.
Segundo José Filho, os rearranjos familiares tiveram início a partir dos anos 60, mas revela que até no período da escravatura já existiam alguns modelos. “Essas mudanças se devem à globalização, às exigências do mundo do trabalho e à transformação de gêneros. Assim, as reorganizações familiares são inevitáveis. As convenções sociais ficam em segundo plano”, diz.
Como defendeu em sua tese de doutorado (“A família como espaço privilegiado para a construção da cidadania”), o padre afirma que as funções da família, porém, continuam as mesmas: socializadora, educativa, econômica e política.
Direitos de homossexuais são polêmicos
Segundo a advogada Sylvia Maria Mendonça do Amaral, as “novas” famílias têm direitos amplamente reconhecidos, exceto as uniões de pessoas do mesmo sexo, que ainda não são legalmente reconhecidas.
Especialista em direito de família e de homossexuais, ela aponta que os direitos conquistados pelo público GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros) foram obtidos isoladamente por meio de decisões judiciais, “que não podem ser aplicadas a todos os casais, pois não são leis”.
Entre as principais conquistas dos homossexuais, Sylvia destaca a aprovação pela Câmara dos Deputados, em janeiro deste ano, do projeto que permite a adoção por casais.
Em Bauru, um casal de mulheres está em processo de adoção no Fórum, mas ainda aguarda uma criança. Caso se concretize, será a primeira adoção por pessoas do mesmo sexo na cidade.
Uma pesquisa publicada na última semana pelo Datafolha mostra como o tema é polêmico: 52% dos entrevistados são contra a adoção de crianças por casais homossexuais e 43% são favoráveis – 6% são indiferentes ou não souberam responder. Quanto à legalização da união homossexual, 49% das pessoas são contrárias à medida, 42% são favoráveis, 7% se dizem indiferentes e 2% não sabem opinar.
Defasado
Para a advogada, o Código Civil está defasado. “O Código Civil que vigorou até 2002 era de 1916 e precisava de adequações. Porém, como o texto atual tramitou por 25 anos até ser aprovado, várias mudanças ocorreram em nossa sociedade e ainda não foram incluídas.”
Fonte: Bom dia Bauru - 16/04/2007
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