É bom ser criança/ Ter de todos atenção/ Da mamãe carinho/ Do papai a proteção./ É tão bom se divertir / E não ter que trabalhar./ Só comer, crescer, dormir, brincar. Seria muito bom se a realidade de toda criança fosse assim, como nos versos do músico Toquinho. Mas, infelizmente, os dados do Conselho Tutelar Norte revelam um triste quadro: 60% dos atendimentos são maus-tratos, informa o conselheiro Lúcio Costa.
Segundo a psicóloga clínica e professora universitária Angela Cristini Gebara, a criança agredida fisicamente, dentro do contexto familiar, “sofre influência diretamente na percepção de si mesma, ou melhor, na distorção da percepção de seu mundo subjetivo, pensa que está falhando em algo, imagina-se pouco agradável e pouco interessante, sente-se culpada por não ser amada”.
O Conselho Tutelar é responsável pela proteção de crianças e adolescentes entre zero e 18 anos incompletos. Os conselheiros oferecem orientação aos pais, fazem encaminhamento para tratamento psicológico nas instituições filantrópicas cadastradas no Conselho Municipal da Criança e do Adolescente e também podem encaminhar para tratamento de dependentes químicos. “Orientamos os pais, mas há reincidências e em casos extremos, quando a criança é maltratada e não encontramos familiares próximos ela é encaminhada para um abrigo”, declara. Segundo Lúcio Costa, meninas entre 13 e 14 anos e meninos entre sete e nove anos são os que mais precisam de abrigos. “Quase toda semana precisamos de uma vaga no abrigo”, confirma o conselheiro.
No Conselho Tutelar Sul, que abrange além da região sul, os bairros Éden, Aparecidinha, Brigadeiro Tobias, Cajuru e região central, a situação não é diferente. “Os maus tratos e negligências por parte dos pais são os casos mais comuns, mas atendemos também crianças que são abusadas sexualmente”,confirma a conselheira Márcia Aparecida Gomes.
Abrigo
Brincando de carrinho / ou de bola de gude / criança quer carinho / criança quer saúde / chutando uma bola / ou fazendo um amigo / criança quer escola / criança quer abrigo. (“Criança é Vida”, Toquinho).
O problema encontrado pelos Conselhos e pela Vara de Infância e Juventude diante de situações de abandono ou maus-tratos é encontrar vagas nos abrigos da cidade, já que todos estão lotados.
É o que ocorre na “Associação Bethel - Casas Lares” que tem espaço para abrigar 25 crianças e adolescentes que são encaminhados pelo Conselho Tutelar ou pela Vara de Infância e Juventude, mas todas as vagas já estão preenchidas. “Aqui na casa há 13 meninas entre 4 e 17 anos e 12 meninos entre 4 e 15 anos que recebem assistência integral”, afirma Ana Lúcia Gardenal Beranger, coordenadora da Bethel.
A Associação completa no dia 21 deste mês 85 anos de história atendendo crianças e adolescentes em situação de risco social ou físico. A missionária e uma das idealizadoras do projeto da Bethel, Virgínia Gartrell, diz que algumas crianças chegam arredias, o que considera ser natural devido aos traumas familiares e um histórico de vida difícil. “É uma questão de adaptação. Outras, chegam e se impressionam com o conforto, em poder se alimentar e pela maneira carinhosa como são recebidas”, explica.
Para Ana Lúcia, falta agilidade nos processos do Fórum. Ela declara que em muitos casos as crianças já deveriam ter voltado para a casa dos pais. “Muitas vezes a mãe é solteira e na época não tinha condições para sustentar a criança, mas essa situação pode ter mudado”.
O juiz da Vara da Infância e Juventude de Sorocaba, Emerson Tadeu Pires Camargo, afirma que “existe a lentidão porque é grande o número de menores em situações de risco”. Quando não é encontrada vaga na cidade são procurados abrigos na região.
Em relação aos menores dos abrigos, há os que estão aguardando o retorno para a família natural, e para isso ocorrer há um acompanhamento na adaptação da criança nessa volta ao lar. E os que já tiveram a destituição familiar, ou seja, os que já podem ser adotados. Neste caso, os dados revelados por ele mostram que nos abrigos há apenas uma criança de até 1 ano (já em processo de adoção); cinco crianças até os 4 anos; 13 crianças até os 12 e acima dos 12 anos são 39. O problema é que, segundo o juiz, a exigência das famílias para adoção é criança até os 3 anos.
Ex-interno
Cláudio Ferreira Alves viveu dos 4 anos aos 18 na Bethel. Hoje, com 20 anos, terminou o colegial, trabalha como barman em um restaurante e divide uma casa com mais cinco pessoas. “Tudo o que estou vivendo agora agradeço à Bethel”.
O presidente da Associação, Heitor Beranger Junior, diz que são muito fortes os laços afetivos firmados entre os menores e os funcionários. É o caso de Alves. “Ele se tornou um amigo nosso e de vez em quando dá conselhos aos novos internos, falando da sua experiência”, confirma.
Conselho Tutelar Norte: Rua Cesário Mota, 517 Centro. Telefones: 32330054 / 32341704 / 97895271 / 3233-0054 / 3234-1704.
Conselho Tutelar Sul: Rua Miranda Azevedo, 521 Centro. Telefone: 32320951 / 97895270. O atendimento é de segunda a sexta, das 8h. às 17h.
Para quem quiser conhecer ou ser voluntário: Associação Bethel: Rua Profa. Hortência Soares do Amaral, 420 Itanguá II. Telefone: 3221- 7266. |