Revelação traz temores para os pais adotivos

A forma e o momento de revelar a uma criança que ela é adotada causam preocupação. Mas o melhor é contar cedo

Entretanto, há quase um consenso entre os especialistas: o melhor é tratar desde cedo da questão, da forma mais natural e segura possível. Para a psicóloga e professora da Universidade de Fortaleza (Unifor), Anna Karinne Melo, mesmo que um casal adote um bebê, à medida em que a criança vai formulando algum grau de entendimento das coisas, deve ir tomando conhecimento de que é filho adotivo.

“Os pais devem falar da forma como achar melhor”, sugere, observando que as famílias substitutas, via de regra, desenvolvem uma forma peculiar de contar aos filhos a sua origem.

A maneira e a linguagem no relato sobre adoção têm muito a ver com a idade da criança. “A mãe adotiva ou pai pode ir explicando conforme surgem as solicitações”, propõe. A curiosidade para descobrir sua origem é inerente ao homem. “Toda criança quer saber de onde veio e isso ajuda a formar a constituição saudável do sujeito no mundo”, disse, ressaltando ser fundamental que os pais não construam para a criança uma identidade falsa.

Vínculo de amor

Pondera, ainda, que no geral a insegurança de uma criança provém da insegurança dos pais. “Se os pais estabelecem um bom vínculo de amor e de confiança com o filho, ele se sentirá seguro, independente de ser ou não adotado”, acredita.

Além de aconselhar que uma família trate com naturalidade o fato de uma criança não ser filho biológico, Anna Karinne Melo desmistifica temores quanto a problemas de temperamento do filho adotivo. “A genética interfere nas características físicas e orgânicas, mas não nas características de personalidade”, comenta.

Se uma mãe é tranqüila e não costuma gritar, por exemplo, isso é repassado na relação construída com a criança. “Na realidade, a relação que você tem como o outro é determinante”, disse, explicando que os relacionamento interpessoais ajudam a criança na percepção que terá do mundo.

Adoção de uma criança ou adolescente requer um preparo por parte dos adotantes e não pode resultar de ato impulsivo, mas sim do real desejo de ter um filho, opina Anna Karinne Melo. Para ela, a “escolha” desse filho deve acontecer no campo da subjetividade e da afetividade. “É uma opção no campo do subjetivo, do afetivo, do vínculo do olhar, de como pegar, do abraçar...”, diz. Nesse sentido, ressalta a importância das visitas e dos contatos preliminares com a criança.
REPERCUSSÃO - Saber da adoção após dois anos de idade pode afetar estudos

Na pesquisa da psicóloga de Pernambuco Suzana Schettini, a maioria dos pais revelou a condição de adotiva à criança antes dos três anos de idade (67%). O estudo aponta, ainda, que a idade em que a criança tomou conhecimento da forma de filiação não teve relação com os problemas de comportamento, mas sim importância significativa em dificuldades escolares.

Crianças que souberam de sua condição de adotiva após os dois anos de idade apresentaram uma incidência maior de dificuldades escolares do que aquelas que souberam antes dos dois anos. “Este achado confirma a importância de se iniciar o processo de revelação o mais cedo possível, o que é consenso entre vários especialistas em adoção”, ratifica.

Suzana Schettini explica que vários autores acreditam que se a adoção não for revelada ou revelada inadequadamente (de maneira súbita, num momento impróprio, por terceiros) poderá acarretar conseqüências de ordem psíquica para essa criança. O objetivo do seu estudo foi contribuir para desmistificar a filiação por adoção.

Ao citar a frase do físico Albert Einstein que “É mais fácil quebrar um átomo do que um preconceito”, lembra que a pesquisa científica é um instrumento importante neste sentido. Para Suzana Schettini, os números mostram as reais possibilidades da adoção no País, além de criar novas perspectivas para as muitas crianças que esperam que alguma família se encoraje pela adoção.

Um dos tabus predominantes refere-se ao sexo da criança, ou seja os meninos adotados seriam mais “problemáticos” que as meninas. O estudo científico não comprova qualquer associação entre o sexo da criança e problemas de comportamento.
MAGISTRADOS CEARENSES - Associação luta contra tabus

Preconceitos, tabus e desencontro entre o perfil de crianças e adolescentes disponíveis em abrigo à adoção e aquele buscado pelos candidatos a adotantes. Para mudar esse quadro, a Associação Cearense de Magistrados (ACM) participa da campanha nacional “Mude um Destino”. Uma iniciativa da Associação dos Magistrados Brasileiros (ABM), a campanha foi lançada em Fortaleza no dia 27 de abril passado.

Os critérios para adoção não deveriam levar em conta raça ou idade, mas o amor, defende o presidente da ACM, Paulo Nogueira . “Não se adota uma criança como quem compra uma roupa, escolhendo a cor, o tamanho”, disse.

A campanha tem três frentes: reintegrar crianças e adolescentes às suas famílias, promover a adoção daqueles que já estão na lista e incentivar os magistrados a acelerarem o processo de adoção. Assim, a campanha não é voltada somente para o incentivo da adoção. Até porque, entre os abrigados, há aqueles que podem ser reintegrados às famílias. O presidente da ACM observa que embora crianças e adolescentes devessem permanecer provisoriamente nos abrigos, há casos em que só saem ao completar 18 anos. A preocupação é saber para onde vão quando completarem 18 anos e não tiverem perspectiva de ser adotados.
PESQUISA APONTA - Educação dos filhos é universalmente difícil

Pesquisa de mestrado da psicóloga Suzana Sofia Moeller Schettini, com 200 pais adotivos de todo o País, desmente a crendice, mas mostra que educar filhos é, universalmente, difícil.

“A questão é complexa em qualquer forma de filiação”, diz a psicóloga autora da dissertação de mestrado “Filhos por adoção: um estudo sobre o seu processo educativo em famílias com e sem filhos biológicos” , defendida no dia 23 de março deste ano na Universidade Católica de Pernambuco.

Enfim, não é fácil educar filhos nem adotivos e nem biológicos, conclui a pesquisadora, mãe de duas filhas naturais e de menino adotivo especial, hoje com oito anos idade. Também identifica que crises pertinentes ao desenvolvimento normal de qualquer criança são confundidas e erroneamente atribuídas como sendo “problemas da adoção”.

O estudo focaliza o processo educativo de filhos por adoção, propondo-se a identificar as dificuldades percebidas pelos pais adotivos, os problemas de comportamento, as dificuldades escolares e as limitações dos pais para estabelecer os limites educativos.

Nas filiações por adoção, aponta a psicóloga, situações do processo educativo tomam grandes dimensões. Lembra que a prática clínica, contudo, constata haver uma forte relação entre as dificuldades dos pais e a resposta comportamental dos filhos.

Ambivalência

Segundo Suzana Schettini, observa-se que muitos pais adotivos, inseguros no seu lugar de pais, passam mensagens ambivalentes aos seus filhos adotados, os quais, em decorrência, apresentam entraves para perceber a sua família como “verdadeira e natural”.

Alerta que enquanto os pais exclusivamente adotivos necessitam elaborar os seus conflitos inconscientes, os pais biológico-adotivos precisam encontrar o ponto de equilíbrio na educação de seus dois tipos de filhos, evitando o excesso de expectativas e a superproteção.

Motivação

O desejo de ter filho é condição sine qua non para o sucesso de uma adoção, cita o estudo. Durante o tempo de espera é importante que os casais consigam refletir sobre a motivação que os impulsiona para a adoção. Qual é o lugar que a criança ocupará em suas vidas? Virá para ser filho ou para servir de instrumento para resolver demandas outras, tipo “melhorar o casamento”, “preencher um vazio existencial”, “servir de companhia na velhice”?

Além disso, a psicóloga pondera que, assim como na concepção natural, a adoção precisa ser um projeto a dois, do casal. Também ressalta a importância de a criança ser bem recebida na família. Do contrário, há o risco de que se sinta inferior e com baixa auto-estima, ou mesmo desenvolva a agressividade em reposta ao mal-estar.
PATRÍCIA SABOYA - Campanhas devem desmitificar a idéia do bebê ideal

Qual a importância da adoção para a senhora?

A adoção para mim foi uma dádiva de Deus. E acredito que para as outras pessoas o sentimento deve ser o mesmo.

Por que se decidiu por adotar uma criança após ser mãe natural de três filhos?

A adoção é um gesto de amor. No caso da adoção da Maria Beatriz, que chamamos de Bia, eu fui seduzida pela possibilidade de ampliar minha capacidade de amar.

Como e quando aconteceu o processo entre o conhecimento da criança e sua adoção?

Fiz o cadastro de adoção e depois segui todo o trâmite previsto em lei. Foi um processo longo, mas quando olhei o rostinho da Bia pela primeira vez, senti que tudo valeu a pena.

Que conselho a senhora daria para quem pretende ser mãe ou pai adotivo?

Que não desista diante das dificuldades, que não são poucas ao longo do processo de adoção aqui no Brasil. Não desista porque na hora em que você ganha a guarda da criança, a sensação é uma das maiores felicidades que se pode ter.

O que fazer para estimular as adoções legais?

O Estado e a Justiça têm que desburocratizar o procedimento de adoção no Brasil; é necessário que se estabeleça um cadastro nacional de adoção; é preciso realizar campanhas de esclarecimento sobre como adotar que se somem às várias reportagens que os meios de comunicação vêm fazendo ultimamente. Campanhas publicitárias, institucionais mesmo. Essas campanhas, além de mostrar como adotar, devem desmitificar a idéia do “bebê ideal”: branco, menina e de até um ano de idade. É preciso estimular a adoção de meninos e meninas afro-descendentes, que são a maioria dos que estão nos abrigos brasileiros esperando para ser adotados. Esses esclarecimentos já estão sendo feitos pela campanha “Mude um destino” da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB).

Qual a opinião da senhora sobre a nova lei de adoção em tramitação no Congresso?

O projeto que está na Câmara tem contradições e ainda apresenta problemas de constitucionalidade. Estou disposta a colaborar com a discussão quando a proposta chegar ao Senado.

* Senadora PSB-CE e coordenadora da Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes
Mozarly Almeida - Repórter
Fonte: Diario do Nordeste - 07/05/2007