ADOÇÃO SEM TABU

Crianças de todas as idades estão à procura de uma família. Felizmente, há cada vez mais candidatos a pais e mães. A cultura da adoção está mudando - e para melhor
Mesmo com três filhos biológicos, Sandra Gregório adotou cinco crianças. familia
Para estimular a adoção no País, é preciso ainda derrubar alguns mitos como a morosidade e a burocracia. O processo pode demandar de um mês a um ano. Sandra Gregorio Picciguelli e seu marido levaram apenas 40 dias para receber em casa dois irmãos. Eles não escolheram sexo, idade nem cor. "Isso chamou a atenção do juiz, que nos atendeu na mesma hora em que fomos nos cadastrar para entrar na fila", conta Sandra. Na época da adoção, ela já tinha três filhos biológicos. Gostou tanto da experiência que em menos de três anos estava com cinco filhos adotados. "Gosto de família grande. É uma alegria em casa", conta. A rapidez no processo de Sandra se deu justamente pela ausência de critérios. "Na maioria das vezes a demora acontece pela dificuldade em achar uma criança de acordo com os critérios estabelecidos pelos pais", argumenta Jandimar Guimarães, presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção - ANGAAD.
Em São Paulo, cerca de dois mil candidatos aguardam uma menina branca, de olhos claros, com até 1 ano de idade. Quando não encontram no local de origem, recorrem a outros Estados. A expectativa por esse perfil, por exemplo, causou congestionamento na Vara de Santa Catarina. Em 2000, 80% dos candidatos eram de fora. A Justiça baixou uma portaria garantindo a prioridade aos pais locais e, hoje, os de outros Estados representam 49%.
Cecilia e o marido estão realizados com seus dois filhos. familia
FALTAM CRIANÇAS
Na verdade, não há crianças para todos neste perfil. "Tem muito mais gente na fila do que criança disponível", afirma Gabriela Schreiner, diretora executiva do Centro de Capacitação e Incentivo à Formação - CECIF, ONG ligada à adoção. Em São Paulo, 6.151 famílias aguardam uma criança (desse grupo, 236 famílias são estrangeiras). Até o começo de outubro de 2004, foram adotadas 1.641 entre meninos e meninas. Em 2003, registrou-se um total de 4.270 e no ano anterior, 4.244. Ou seja, 1.800 famílias, em média, continuam esperando ao fim de cada ano. Só não ocorrem mais processos porque a maioria das crianças dos abrigos possui família e não está disponível para adoção. Nos abrigos de São Paulo, 67% das crianças e adolescentes estão em poder da família, segundo uma pesquisa da Secretaria Municipal de Assistência Social de São Paulo (SAS). Como a prioridade do Estado é reintegrar essas crianças aos seus pais biológicos, em muitos casos passam-se anos até o juiz determinar que os menores possam ser adotados. Resultado: em razão da morosidade do processo, muitas crescem e saem do padrão de procura, que vai até dois anos. Por isso, as ONGs lutam tanto para que as famílias optem pela adoção tardia.
No Rio de Janeiro, o juiz Siro Darlan baixou em junho uma portaria polêmica, determinando que o candidato não tem a opção de escolha de sexo, cor e idade. A idéia é louvável e aumentou o número de adoções, no entanto, há algumas críticas. "A iniciativa é acertada, mas tem falhas. Isso não faz com que as pessoas mudem a idéia e queiram uma criança maior. Por conseqüência, elas vão para outro Estado ou escolhem o caminho da clandestinidade", alerta Gabriela Schreiner. Para ela, a medida correta seria adotar um programa que dê suporte cultural e pedagógico para que a sociedade se conscientize e passe a adotar crianças mais velhas.
O EXEMPLO DOS FAMOSOS
O caminho parece acertado. Em junho de 2003, a fundação Orsa lançou uma campanha de adoção tardia e houve um aumento de 76% de ligações do projeto Alô Vida, atendimento telefônico que tira dúvidas sobre adoção, entre outros serviços. O exemplo de famosos que levantam a bandeira da adoção, como Elba e o ator Marcello Antony, também ajuda a divulgar a causa. O ator tem feito palestras na 1ª Vara da Infância e da Juventude, no Rio de Janeiro, sobre a experiência emocionante com o seu filho Francisco. Se medirmos o resultado da iniciativa pelo entusiasmo das mulheres nos encontros, o ator vai ajudar muitas crianças a encontrar um lar.
Raio-X da adoção
 51% dos casais têm filhos biológicos.
 O perfil do casal é branco, católico, com idade em torno de 34 anos, escolaridade média e renda superior à da maioria da população.
 23% das adoções legais são inter-raciais.
 92,5% dos filhos adotivos declaram amar seus pais, enquanto 7,5% estão insatisfeitos com o relacionamento.

FONTE: LIDIA WEBER, PESQUISADORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ
PARA RECEBER ORIENTAÇÃO SOBRE ADOÇÃO
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www.projetoacalanto.cjb.net
Por Daniela Venerando
Fonte:Revista UMA