Entrevista com Lúcia Pegorer, futura mãe adotiva de uma menina com Síndrome de Down
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Entrevista com Lúcia Pegorer, futura mãe adotiva de uma menina com Síndrome de Down

Lúcia Pegorer mora em Brasília, é professora particular e mãe de dois filhos.  Há seis meses, iniciou o processo de adoção de Ana Clara, uma criança com Síndrome de Down. Lúcia conta porque quer adotar  Ana Clara e o que a menina representa na sua vida e de sua família.

A adoção de Ana Clara

Eu sempre tive vontade de adotar uma criança, desde antes do meu primeiro filho. A Ana Clara, que agora está com 1 ano e 3 meses, surgiu na minha vida de forma inesperada. A mãe biológica dela se separou do pai e não tinha condições de criá-la. A menina ficava jogada em qualquer lugar, a mãe saia e a deixava aos cuidados de qualquer pessoa. Meus filhos tomaram conhecimento dessa situação e me trouxeram a criança. Eu decidi que enquanto ela não tivesse um lugar adequado para ficar, moraria comigo.
A recepção
Quando chegou aqui, ela não tinha recebido os cuidados primários. Aos 9 meses, não sentava, nem mexia os bracinhos, só tomava mingau. Além disso, estava com os tímpanos estourados. Nós cuidamos dela, levamos ao médico. Fizemos tudo para que ela pudesse levar uma vida normal.
O apoio
Tenho dois irmãos e eles me deram muito apoio, inclusive são os padrinhos da Ana Clara. Quando eu a acolhi, meu marido Eriberto estava desempregado, meus irmãos me ajudaram muito.

A convívio com a família biológica
A mãe sempre a visita. Nós estamos com um processo de adoção na justiça. A Ana vai ser nossa filha legalmente, mas os pais biológicos têm o direito de visitá-la, e eles o fazem com freqüência. Mas sempre na minha casa, daqui ela não sai.
A própria mãe biológica está cuidando do encaminhamento do processo, mas ainda não temos previsão de quando estará tudo certo, e eu não gosto de pressionar a família. Ana tem um irmão biológico e sua mãe está grávida novamente, mas apenas Ana tem Down.
A escola
Ela freqüenta uma escola de estimulação precoce no Centro Educacional Número 4 de Taguatinga Sul. Tinha uma fila de espera para entrar na escola, mas ela foi logo chamada. A escola é inclusiva. São ministradas algumas aulas individuais, adequadas às necessidades dela, e outras são coletivas, com todos os alunos.
Preconceito
É triste lembrar que ainda existe muito preconceito. Algumas pessoas se afastam quando chegamos, viram o rosto. A novela Páginas da Vida foi boa porque mostrou que as crianças com Down têm necessidades diferentes, mas interagem da mesma forma. Eles são muito perceptivos, gostam do convívio social como todas as pessoas. Achei que o tema foi bem abordado na novela. Isso é bom, pois mesmo alguns pais não sabem de muitas coisas sobre seus filhos com Down. Depois da novela percebo uma mudança, hoje vemos as crianças com Down em shoppings e no convívio social.
A espera de uma família
Não existe uma fila de espera para adoção de crianças especiais. Os abrigos estão lotados de crianças especiais, precisando de uma família. Mas as pessoas querem adotar crianças novas, bonitinhas, branquinhas, as demais ficam sem um lar.
Presente
A Ana foi um presente de Deus, é uma jóia rara, com certeza. Ela foi um presente Dele para mim. Ela veio até mim e quando eu a acolhi, não sabia que iria adotá-la. Agora nossa família está mais completa e feliz. O próximo é muito importante para mim, todos deviam fazer a sua parte.
 
Alguns dizem que sou doida por já ter dois filhos e adotar mais um, ainda mais dessa forma. Mas doido é quem vê um problema e se afasta dele. Outros querem me colocar em um pedestal. Eu só digo que estou ajudando, fazendo o meu papel. Se mais pessoas agissem dessa forma, o mundo seria um pouco melhor.
Fonte:Plenarinho