Adoção, um gesto de amor eterno Nos abrigos do DF, há 880 crianças à espera de uma família. Mas a decisão não pode ser motivada apenas pelo emocional
Acolher
quem a vida abandonou. Dar amor de mãe a alguém que não
saiu de seu ventre. Preencher a lacuna pai no registro de u ma criança.
Adotar uma criança é muito mais do que caridade ou amor
ao próximo. É um ato de responsabilidade, definitivo e irreversível.
O processo de adoção passa por várias etapas e demora em média de dois a três anos, dependendo do perfil da criança escolhida. Segundo Souza, 90% das pessoas querem meninas brancas de 0 a 1 ano. O primeiro passo para quem quer adotar uma criança é procurar a Vara da Infância e da Juventude levando uma série de documentos (ver quadro). O adotante participa de uma palestra, em que psicólogos, assistentes sociais e pedagogos que explicam os prazeres e responsabilidades de se adotar uma criança. - Depois de assistir à palestra e de reunir os documentos necessários, abrimos um processo de adoção. Os requerentes passam então por uma fase de estudos psicossociais onde é verificado se ele é apto a adotar - afirma Souza. Os critérios para considerar uma pessoa apta são principalmente psicológicos. - A renda também é importante, mas critérios como equilíbrio, ambiente doméstico favorável, compatibilidade e desejo legítimo de adotar são determinantes - conta. Durante esse período, o adotante e seus familiares passam por entrevistas e visitas domiciliares. Além de se certificar de que a família reúne condições para acolher um novo membro, os técnicos da Vara da Infância e da Juventude querem evitar que os casais desistam da criança no caso de se concretizar a adoção, evitar que essa criança seja abandonada pela segunda vez. - Essas crianças já passaram por experiências mais que dolorosas. Passar por mais uma rejeição pode comprometer a auto-estima delas para sempre - aponta Souza. Atualmente, 165 famílias esperam por uma criança no Distrito Federal. Nos abrigos locais, vivem 880 crianças, mas apenas 120 estão cadastradas para adoção. Antes de indicar uma criança para a adoção, a Vara da Infância e da Juventude tem que garantir que o vínculo com a família biológica não existe mais. - O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê que a criança deve permanecer prioritariamente com a família natural. A adoção é cogitada somente quando o abandono completo é verificado. Crianças aptas para a adoção são aquelas cujos pais biológicos deram consentimento perante o juiz, são desconhecidos ou perderam o poder familiar. Em caso de crianças em abrigo, o abandono é decretado se ela não receber visita em um período de seis a oito meses. Quando uma criança apta para adoção corresponde ao perfil escolhido pelo adotante, inicia-se o estágio de convivência. - O período de convivência é feito para crianças com mais de um ano, para que os pais possam conhecer a criança e a criança, os pais. É uma etapa importante, que deve ser feita com cuidado, para evitar problemas de adaptação - explica Souza. O estágio de convivência é acompanhado de perto pela Vara da Infância e da Juventude e por funcionários do abrigo onde vive a criança e dura até seis meses. Só depois desse período, o adotante pode levar a criança para casa e entrar com o pedido para legalizar a adoção. Legalidade - Cerca de 85% das adoções feitas no Brasil são acolhimentos informais, onde a mãe entrega a criança a uma família sem passar pela Vara da Infância e da Juventude. - Muitas vezes o casal que recebe a criança não tem afinidade nem condição de cria-la. É importante que pais e crianças passem pelo processo legal da adoção para que seja feito sem traumas. Souza aconselha mães que pretendem entregar seus filhos à adoção a procurar a Vara da Infância e da Juventude. - As mães têm medo de entregar seus filhos à Vara da Infância e da Juventude, temem ser punidas por isso. Entregar uma criança à justiça em bom estado de saúde é um gesto de amor. Deixar uma criança sem os cuidados necessários ou sozinha é que constitui crime, o chamado abandono de incapaz - afirma. Um sonho a cada ano mais distante
Há cinco anos, Caio foi abandonado pelos pais biológicos. Desde então, o menino vive na expectativa de ganhar um novo lar. Em duas oportunidades, casais se apresentarem como prováveis adotantes. Por duas vezes, Caio sonhou e esperou por ter pai, mãe, e não somente tios, como no abrigo. Não deu certo. Entre um desenho animado na TV (''não gosto dos de luta'') e uma música no som (''gosto de música romântica''), Caio sonha em ser adotado. Ninguém lhe contou que isso pode não acontecer. Caio fala com uma certeza desconcertante de sua casa nova. - Vou sentir muita saudade do abrigo e de meus amigos, mas vai ser melhor ser adotado - acredita. Mariza Santana, diretora do abrigo Nosso Lar, onde Caio vive, concorda que a possibilidade de o menino ser adotado é pequena. - Infelizmente, crianças acima de três anos estão fora da idade de adoção. Se aparece uma menina recém-nascida, a adoção é quase imediata - conta. No abrigo de Mariza, apenas 4 das 70 crianças estão aptas para a adoção. - A maioria ainda tem vínculo com a família, recebe visitas ou têm pais em recuperação - explica. Nos 22 anos em que está à frente da instituição, Mariza viu várias crianças serem adotadas e reintegradas à suas famílias. - Pais afetivos têm a mesma capacidade de oferecer afeto que pais naturais - garante. Padrinho - Quem não quer ou não pode adotar uma criança, tem uma outra forma de dar afeto a meninos e meninas que moram em abrigos: o apadrinhamento. No DF, desde 2002 existe o Projeto Aconchego que capacita homens e mulheres a serem padrinhos de crianças abrigadas. - Os padrinhos e madrinhas não têm que fazer nenhuma espécie de contribuição financeira para a criança ou para o abrigo. O vínculo criado é somente afetivo - afirma Jandimar Guimarães, criadora do projeto. Para ser padrinho, a pessoa passa por palestras com psicólogos e tem que garantir que não vai ''desistir'' da criança. As visitas ao abrigo são feitas no mínimo duas vezes por mês e, depois de algum tempo, o padrinho pode levar seu afilhado para passeios. - Hoje, temos apenas 12 crianças adotadas e verificamos uma melhoria enorme na auto-estima, comportamento e rendimento escolar dessas crianças. Fazemos um trabalho lento, primando a qualidade e não a qualidade. Os resultados aparecem a longo prazo - acredita. (L.R.) *** Serviço: Para apadrinhar uma criança ligue para 361-4298 ou 9988-3566 ou visite o site www.projetoaconchego.org.br
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