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Adoção aumenta em São Paulo

RIO DE JANEIRO - Agência Estado

As adoções de crianças em São Paulo não só aumentaram no ano passado, como apresentaram mudanças de perfil. A resistência de casais a acolher crianças mais velhas ou de cor negra e parda - e mesmo a adotar irmãos - caiu, confirmando uma tendência observada por órgãos e entidades que lidam com adoção.

“A quantidade de crianças adotadas tem crescido, mas o mais importante é a mudança que está ocorrendo no perfil”, afirma o juiz-corregedor Reinaldo Torres de Carvalho, secretário-geral da Comissão Estadual Judiciária de Adoção Internacional (Cejai). A média mensal de adoções em São Paulo passou de 273 em 2004 para 311 em 2005, um crescimento de 14%. Nos últimos cinco anos, 18.343 adoções foram homologadas no Estado. De acordo com dados do Tribunal de Justiça, até outubro 1.742 pessoas ou casais passaram a integrar as listas, ante 1.444 inscritos em 2004. Em termos mensais, o crescimento no número de pretendentes chegou a 45%.

Outra pesquisa recém-concluída pelo CeCif, organização não-governamental que trabalha com grupos de apoio à adoção, revela que os interessados ainda insistem em acolher crianças recém-nascidas e de no máximo 2 anos (68% dos casos), opção seguida pela faixa etária dos 2 aos 5 (27%) - e do sexo feminino. Mas, embora a grande maioria ainda prefira os brancos (71%), o número de pretendentes que não fazem restrições de cor ou de raça cresceu 14,5%.

A oferta de crianças entra em uma espécie de funil. “Ao contrário do que muita gente imagina, o número de brasileiros dispostos a adotar é suficiente para resolver de vez o problema”, garante Gabriela Schreiner, coordenadora da CeCif. “Em São Paulo a lista de interessados é cerca de dez vezes maior do que o número de crianças.”

A discrepância esbarra justamente na exigência da parcela de candidatos que ainda preferem os mais jovens e brancos. “As pessoas querem crianças que não existem”, ressalta o juiz-corregedor. “O perfil da criança hoje disponível para adoção é o negro ou pardo, com oito anos de idade e muitas vezes com dois, três ou quatro irmãos”, analisa Gabriela. “Estamos tentando conciliar o desejo de quem quer adotar com a realidade nos abrigos de menores”, diz o juiz. Segundo ele, a fila de espera por um recém-nascido chega a demorar cinco ou seis anos.

A professora Isilda Cerasoli adotou dois bebês e, há um ano e meio, resolveu acolher também uma menina de 5 anos. “Muita gente acha que a criança mais velha traz muitos traumas. Mas a experiência da rejeição pode vir desde a gestação”, diz. Ela conta que, no início, houve um “choque cultural e de valores” com o resto da família, mas logo a menina se adaptou. “A criança também se esforça.” Isilda, que é voluntária em um grupo de apoio à adoção em Campinas, no interior do Estado, conta que crianças mais velhas normalmente exigem um acompanhamento de psicólogos.

Restrições - Entre aqueles cadastrados para futuras adoções, 20% declaram-se dispostos a adotar grupos de irmãos. Mas apenas 1% admitiu a possibilidade de levar para casa crianças com necessidades especiais, com o vírus HIV ou com distúrbios mentais. “Quando alguém procura irmãos, imagina gêmeos ou crianças com diferença mínima de idade. Mas o que temos são grupos de cinco ou seis irmãos reunidos em abrigos, em que o mais velho, apesar de adolescente, acaba ocupando a responsabilidade sobre os outros a ponto de o caçula considerá-lo um pai”, diz Torres

Fonte :O Liberal on-line 03.01.06- Belem/PA