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Um bebê de apenas dois meses que foi encontrado na Lagoa da Pampulha, em Minas Gerais, deixou boa parte do Brasil muito comovida. Nós, da equipe do Plenarinho, também ficamos impressionados e, por isso, aproveitamos o caso da garotinha jogada na água pela mãe para falar de um assunto muito delicado: a adoção. Na verdade, a pequena Letícia - é assim que essa garotinha passou a se chamar -, não foi a última criança a ficar sem lar no Brasil. Muitas outras crianças - bem novinhas ou mais crescidas - também são abandonadas e passam a aguardar por um lar.Você já ouviu falar em orfanatos? Abrigos? Não?! É nesses lugares que moram os brasileirinhos abandonados pelos país. Então, veja aqui a reportagem que a Turma do Plenarinho elaborou para deixá-lo bem por dentro do assunto.Pra início de conversa, veja o que a Légis achou no dicionário sobre a palavra adoção: “aceitação espontânea e legal de uma criança como filho”. Mas na prática, a vida ensina que adoção é essencialmente um gesto de amor. Em muitos casos, o laço de amizade e carinho que une pais e filhos adotivos acaba se tornando tão forte quanto o sentimento que nasce do sangue!Longe de casaNão se sabe ao certo quantas crianças e adolescentes estão sem lar atualmente. De acordo a pesquisa divulgada no final de 2004 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cerca de 24 mil crianças encontram-se nos 870 abrigos mantidos pelo governo federal. Em entrevista ao jornal Correio Braziliense (edição de 03/02/2006), a pesquisadora do Ipea Enid Rocha revela que 87% das crianças que vivem em abrigos têm uma família e estão no local por vários motivos: pobreza, maus tratos, abandono, ou porque os pais são usuários de drogas. Apenas 12% das crianças são órfãos ou moradoras de rua.Enid afirmou, ainda, que apenas 10% das crianças que vivem em abrigos do governo poderiam ser adotadas hoje. Desses, cerca de 2 mil 400 aqueles não têm família ou, por decisão da Justiça, não podem mais voltar a morar com a família (por terem sofrido maus-tratos em casa, por exemplo).Mas como se sabe que não existem soluções rápidas e mágicas, esta questão envolve relações humanas de afeto e não está sujeita a simples fórmulas. A adoção, portanto, não constitui a solução, mas certamente uma das possibilidades indicadas para aqueles que parecem fadados ao abandono pela vida afora. Ela tem sido para muitas crianças a oportunidade de encontrarem uma mãe, um pai, uma família.Não deve ser fácil crescer em instituições, não receber visitas dos familiares e nem mesmo a autorização deles para ser adotada, não? Passar a infância e a adolescência em abrigos pode causar diversos problemas físicos, emocionais e psicológicos (como tristeza profunda, baixa auto-estima, sentimento de abandono, comportamento agressivo, dificuldade de integração na sociedade, entre outros). Até a capacidade de aprender é prejudicada, porque em muitos abrigos os menores são tratados de forma coletiva e, na maioria das vezes, não têm sua individualidade respeitada.Como a legislação brasileira defende que a criança seja criada pelos pais ou familiares, e somente depois de esgotadas essas possibilidades é que se pode tentar a adoção, é comum muitas crianças chegarem aos abrigos com 2 ou 3 anos de idade para só saírem de lá quando completam 18 anos. |
Fila de Espera
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De Olhos Bem AbertosO tema da adoção é tão sério e importante que, com o passar do tempo, a sociedade se mobilizou, se organizou, formou movimentos de apoio à adoção nos diversos Estados, e a partir daí, muitas medidas foram tomadas para dar ao assunto o destaque que ele merece no Brasil. Pela Lei nº 10.447, de 2002, foi instituído o dia 25 de maio como "Dia Nacional da Adoção". Em abril de 2003, foi formada no Congresso Nacional a Frente Parlamentar da Adoção - um grupo de deputados e senadores de vários partidos que se reuniram tendo como objetivo garantir que todas as crianças e adolescentes tenham a oportunidade de conviver em família.A partir daí, aconteceram vários debates para se formular a tão necessária Lei Nacional da Adoção (Projeto de Lei 1756/03). O projeto foi produzido com contribuições de todo o País - opiniões de juristas, psicólogos, assistentes sociais, grupos de apoio à adoção, etc. Foi instalada, então, em 2004, uma comissão especial para analisar essa proposta. O grupo de parlamentares tem o papel de definir o conceito de adoção, discutir quem pode adotar e ser adotado e regras para a adoção internacional. O Projeto de Lei 1756/03, que está sendo analisado na Câmara dos Deputados, é uma proposta de lei da adoção para o Brasil. O autor, deputado João Matos, do PMDB de Santa Catarina (atualmente de licença da Câmara, porque assumiu uma secretaria em seu Estado), diz que apresentou o projeto na esperança de que um dia toda criança ou adolescente tenha um lar e desfrute do direito de viver em família. Segundo ele, uma sociedade que reconhece a importância da adoção acaba se tornando mais solidária e, aí, fica mais forte a possibilidade de todos serem verdadeiros cidadãos. |
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Eca e Código CivelMas o novo Código Civil (Lei 10406, de 2002) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA - Lei 8069, de 1990), já não tratam adequadamente das questões relativas à adoção? De acordo com o professor de Direito Civil da Universidade de Brasília (UnB) Hércules Alexandre Benício - que participou de uma audiência pública realizada aqui na Câmara -, o problema do Código Civil e do ECA é que essas duas leis tratam a adoção de maneira muito superficial. O professor declara que o projeto da Lei Nacional da Adoção merece aplauso quando reafirma o direito da criança adotada de conhecer todo o processo de adoção e as informações sobre os pais biológicos (de sangue).Para a funcionária da Câmara Jandimar Maria Guimarães, presidente do Projeto Aconchego - Grupo de Apoio à Adoção e ao Apadrinhamento Afetivo , o novo Código Civil acabou retirando algumas conquistas que haviam sido obtidas com o ECA, considerado uma das melhores e mais completas legislações do mundo. “O ECA determinou que na certidão da criança adotada não pode aparecer que ela é filha adotiva, porque é uma forma de preconceito contra ela. Mas o Código Civil anula isso, dizendo que o documento deve, sim, conter a informação de que ela é adotiva.”, exemplifica.Essas diferenças presentes no ECA e no Código Civil muitas vezes trazem confusão, sabe? É difícil para os juízes que estão analisando um caso de adoção saber qual lei seguir. Alguns especialistas seguem o ECA, enquanto outros adotam o que está escrito no Código Civil. No texto O Brasil precisa de uma Lei Nacional da Adoção, o juiz da 2ª Vara da Infância e da Juventude de Recife-PE Luiz Carlos Figueiredo diz que a verdadeira solução para o problema é trazer uma lei nova e específica sobre a adoção, que acabe com todos esses desentendimentos, como o PL 1756/03. De acordo com o juiz, centenas de projetos de lei que estão no Congresso Nacional sugerem a modificação do ECA e não vão para frente. “As crianças que se encontram nos abrigos (principalmente as mais velhas) precisam de uma lei ágil, que facilite e estimule logo a adoção e resolva a vida delas”, declara.No artigo que o deputado João Matos escreveu para o Plenarinho, ele afirmou que o novo Código Civil foi um verdadeiro “atraso legislativo” - talvez porque o texto básico do Código tenha sido escrito antes da Constituição Federal e do Estatuto da Criança e do Adolescente. “Os fatos recentes recomendam que é chegada a hora de se concentrar em uma única Lei todas as disposições a respeito da adoção e, com isso, facilitar a vida e assegurar uma família a milhares de brasileirinhos que se encontram abandonados e nos abrigos com quase nenhuma perspectiva de futuro”, destacou.Respeito ao Direito do Adulto e da CriançaAntigamente se dizia que adoção era uma alternativa para famílias que não tiveram a oportunidade de ter filhos biológicos. Os adultos que queriam adotar uma criança eram o centro das atenções, e não as crianças e os adolescentes. O mais importante era satisfazer o desejo de casais que não podiam ter filhos de sangue; era alegrar o lar da família deles com a chegada de uma criança. Pensava-se mais no estado emocional dos pais que na necessidade que as próprias crianças abandonadas sentiam de ganharem uma família.No início do século XX, o Código Civil só considerava a adoção simples, em que apenas os pais adotivos tinham parentesco com a criança, e não os outros familiares. A adoção plena - em que o adotado passa a pertencer à família dos pais e perde os vínculos com a família biológica - passou a valer em 1979. Com a Constituição de 1988, acabaram-se as diferenças entre os filhos naturais e os adotados, que passaram a ter os mesmos direitos. O novo Código Civil permite que maiores de 18 anos - e não de 21, como estabelecia o ECA - sejam pais adotivos.Nessas novas leis, a adoção é tratada como um direito da criança e do adolescente, nos casos em que for comprovada a impossibilidade de eles continuarem vivendo na família natural. Hoje em dia, está muito mais clara a importância de proteger os menores do abandono, de dar a eles um lar onde possam ser acolhidos com carinho e tratados como membros da família realmente. “O poder da família sobre a criança não pode ser maior do que o direito da criança a um lar estruturado, mesmo que com pais substitutos”, disse a deputada Maria do Rosário, do PT do Rio Grande do Sul, presidente da Comissão Especial da Adoção, em entrevista ao Correio Braziliense. |
Projeto de Lei 1756/03O Plenarinho apresenta agora para você alguns dos principais pontos que estão previstos no Projeto de Lei 1756/03. Vale a pena conferir. Mas lembre que alguns tópicos (como o prazo para resolver a adoção de um menor, ainda deverão causar muita polêmica no momento da votação do projeto).
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Uma bela históriaLembra da Jandimar Maria Guimarães, de quem já falamos nesta reportagem? Ela não faz parte de um grupo de apoio à adoção por acaso, não. Ela conhece, na prática, o que diz e comprova, com a própria vida, que a adoção é um ato de amor que compensa e faz bem para toda a família. O Zé Plenarinho conversou com ela e descobriu que essa funcionária da Câmara é uma mãe muito coruja de oito filhos: ela tem três filhos biológicos e cinco filhos adotivos e garante que todos são igualmente amados. Garante que a família vive em harmonia e que todos se respeitam e se sentem respeitados.Jandimar já tinha três meninos quando resolveu adotar uma menininha. Ficou pouco tempo na fila de espera pela adoção (apenas 30 dias) e recebeu em casa a pequena Débora, recém-nascida. Como a idéia era ter cinco filhos, Jandimar se dispôs a adotar uma outra menina. Mas neste caso, o processo demorou mais tempo. Então, enquanto ela esperava pela chegada da segunda filhinha, um sobrinho dela, chamado Wellington, que já morava há alguns anos na família, pediu à tia que fosse adotado por ela. Jandimar gostou da idéia, é claro, e passou a ser a mamãe do sobrinho, agora de papel passado e tudo.Foi em 1993, depois de três anos de espera para adotar outra menina, que chegou Érica, também recém-nascida. O bebê nasceu prematuro e precisou de muitos cuidados, porque era doentinho, mas hoje Érica tem 12 anos e é bem saudável.Até a adoção de Érica, Jandimar não participava do movimento de apoio à adoção. Mas em 1997, ela e outros pais adotivos se reuniram e fundaram no Cruzeiro Velho (cidade do Distrito Federal), por orientação de técnicos da Vara da Infância e da Adolescência, o Projeto Aconchego - Grupo de Apoio à Adoção e Apadrinhamento Afetivo. A finalidade do movimento é diminuir o preconceito em relação à família adotiva e ao filho adotado. Fazer visitas a diferentes abrigos de crianças e conhecer a realidade e as histórias dos menores abandonados naquelas instituições foram estímulos para que o grupo pudesse trabalhar sensibilizando a sociedade para a importância da reintegração da criança à família de origem ou à adoção por uma outra família.Depois de se envolver com esse projeto de solidariedade, Jandimar adotou, em 1999, dois meninos gêmeos, que tinham, na época, quase cinco aninhos. Os meninos são negros; enquanto Jandimar e o ex-marido são morenos. “Os grupos de apoio à adoção são importantes porque neles os participantes têm chance de conviver com famílias adotivas”, explica. “É um espaço para reflexão, em que conversamos muito, indicamos livros para quem quer conhecer mais o assunto e tentamos mostrar a importância de se adotarem crianças e adolescentes mais velhos, irmãos (o ECA não permite que os irmãos sejam separados), crianças que tenham algum tipo de deficiência, menores que não tenham, necessariamente, a cor dos pretendentes a pais adotivos”.Jandimar diz que, no caso da menina Letícia - que foi abandonada na Lagoa da Pampulha -, os meios de comunicação exageraram na exposição da figura e da história da criança. “A mídia e a Justiça perderam uma grande chance de explicar à sociedade que as mães têm o direito de entregar seus filhos, legalmente, em qualquer Vara da Infância e da Juventude existente em qualquer cidade do Brasil. “As mães precisam saber que não é necessário abandonar os pequenos em qualquer lugar”, declara. O Projeto Aconchego pretende, inclusive, organizar uma campanha de apoio às mães que entregam os filhos em adoção, porque elas também precisam de ajuda.É mesmo essencial conhecer sobre o assunto da adoção, hein, Plenamigo? Que tal, então, você entrar no nosso debate solidário e registrar também a sua opinião?Saiba mais
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