Especialista em adoção e com três livros publicados sobre o assunto, a psicóloga Maria José Barbosa trava uma guerra solitária em Bauru: a defesa da adoção de crianças mais velhas, negras e portadoras de deficiências ou doenças.
“Não vejo a adoção como escolha, mas sim como opção do coração”, defende.
Maria José sugere que os casais que estão na lista de espera por um filho “ousem” pensar na possibilidade de adoção tardia, inter-racial e de crianças especiais.
De acordo com a psicóloga, a comparação entre o número de pais cadastrados no setor técnico da Vara da Infância e Juventude com o de crianças que podem ser adotadas mostra que a fila existe porque a maioria quer bebês recém-nascidos brancos e totalmente saudáveis.
Ela revela ainda que, hoje, existem de 150 a 200 pais cadastrados e cerca de 80 crianças disponíveis.
“Não há fila para as crianças negras, especiais e com mais de 8 anos”, diz. “Os casais querem o filho ideal, não o real”.
Na edição do dia 6, o BOM DIA mostrou a comovente história da menina Maria (nome fictício), 1 ano e 7 meses, abandonada pela mãe numa UTI neonatal. Disponível para adoção, a menina não consegue uma família por causa da saúde frágil. Ela nasceu prematura e também com problemas respiratórios.
A especialista cobra também a Justiça. Na opinião dela, o universo das crianças moradoras de abrigos deveria ser mais disponível para as pessoas interessadas em adoção – essa abertura facilitaria encontros afetivos.
Maria José defende transparência no processo de adoção e afirma que é um direito da criança conhecer sua origem, saber que veio de uma “barriga quentinha” e teve pai e mãe biológicos.
Mas, na prática, o que vê são casais que evitam falar abertamente sobre a adoção, usam a expressão “filho do coração” e criam crianças que temem tocar no assunto para não magoar os pais.
Grupo de apoio fica apenas no papel
A psicóloga Maria José Barbosa é presidente do Grupo de Apoio Amigos da Vitória, criado em 2001 para reunir pessoas interessadas em adotar. Mas, apesar da boa intenção, o grupo praticamente só existe no papel. Segundo ela, os pais desaparecem das reuniões após conseguir a adoção. “Já fiz reunião com um único casal”, diz. “Percebo que os pais não têm compromisso com o grupo.”
Projeto quer informatizar cadastro
É quase inacreditável, mas não é possível saber exatamente o número de pessoas interessadas em adoção cadastradas na Vara da Infância e Juventude de Bauru. O motivo: o setor não é informatizado. Também não é possível saber exatamente quantas crianças estão na fila da adoção na cidade.
A falha não acontece só em Bauru. Segundo informações do setor técnico, apenas a central de adoção do Fórum João Mendes, em São Paulo, possui um cadastro informatizado.
Está em discussão no Congresso Nacional a criação de um cadastro único de adoção para o país. O projeto já foi aprovado pelo Senado e seguiu para discussão na Câmara dos Deputados.
O projeto prevê que todos os juizados encaminhem ao Ministério da Justiça as fichas das crianças e dos interessados em adoção. A intenção é agilizar o processo e reduzir as filas.
O cadastro único não resolve, no entanto, a rejeição às crianças maiores, especiais e negras. Irmãos abandonados pelas famílias biológicas também enfrentam dificuldades, pois são poucos os casais que aceitam levar todos para casa. Muitas crianças nessas condições vão para fora do país – cerca de um terço das crianças adotadas por estrangeiros vão para a Itália.
Fonte: Bom dia Bauru
10/3/2007 |
Cristina Camargo |
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