Ao todo, 443 pessoas em Goiânia e no interior do Estado estão na fila de espera para adotar uma criança. Do outro lado, atualmente há apenas quatro crianças à disposição: três meninos, de 7, 11 e 13 anos, e somente uma menina, de 11 anos. Outras três poderão ser adotadas em breve, uma vez que o poder familiar foi suspenso pela Justiça. São casos de vítimas de maus tratos ou filhas de pais alcóolatras, dependentes químicos ou deficientes mentais.
Grande parte dos casais (45,14%) prefere bebês, de 0 a 1 ano, do sexo feminino. Só em Goiânia, 96 têm preferência por meninas. Até os solteiros as preferem: 27 na Capital e 9 no interior. Os recém-nascidos abandonados pelas mães são adotados em pouco tempo. O juiz Maurício Porfírio Rosa, do Juizado da Infância e Juventude (JIJ), Comarca de Goiânia, aguarda primeiro período para que a mãe se manifeste para depois disponibilizar a criança para a adoção.
Apesar de o tempo de espera ser grande, geralmente mais de um ano, o número de adoções cresceu nos últimos cinco anos. Aumentou de 95 casos em 2001 para 129 em 2006. Quanto mais exigências o candidato fizer como opção por sexo mais tempo deverá esperar.
O juiz Maurício Porfírio diz que o crescimento das adoções de 2001 para 2006 é significativo, mas se preocupa com as adoções dirigidas, também chamadas de intuito persona. São casos de mães que, ao entregarem seus filhos, já apontam para quem quer adotá-los. “Uma adoção mal feita destrói uma vida. Não podemos nos arriscar.” Por isso, o magistrado pede às mães que procurem o juizado, que lhes dará apoio. “Filho não é objeto. Entregá-lo para o juizado é fazer valer o direito da criança de ter a melhor família possível,” diz.
Regras - O interessado em adotar deve ter mais de 18 anos e não ter antecedente criminal. O estado civil, a classe social ou a preferência sexual não pesam no processo. “Para acolher a criança, o juiz leva em conta o que for melhor para ela”, diz Edivânia Freitas, assistente social e diretora da Divisão Psicossocial do JIJ.
Assim que uma criança com perfil compatível com o desejado for localizada, o candidato é avisado de imediato. Com a aprovação do juizado, é emitida uma nova certidão de nascimento, em que os pais dão seu sobrenome ao filho e podem, inclusive, mudar o prenome da criança.
Perfil - As crianças disponíveis para a adoção são aquelas filhas de pais desconhecidos ou cujos genitores biológicos tiveram decretada a perda do pátrio poder por sentença transitada em julgado, causada por abandono, maus tratos e por descumprimento injustificado dos deveres de guarda. Se a criança for encontrada em ambiente contrário à moral e aos bons costumes, os pais também podem perder o pátrio poder.
Normalmente, as crianças ficam em regime de abrigo público ou privado. Em Goiânia, das quatro disponíveis para a adoção, três estão no Condomínio Sol Nascente, no Setor Pedro Ludovico, e a menina de 11 anos, no Lar de Pai Joaquim, Setor Urias Magalhães.
Lucas (nomes fictícios), 7, é filho de mãe andarilha e de pai usuário de drogas. A mãe também é pedinte em sinaleiro e sofre de deficiência mental. Mateus, 11, é órfão de pai e mãe. Tem uma irmã que mora no interior, mas que vive em situação de pobreza. Ficou com ela durante um tempo, mas voltou para Goiânia porque a irmã não teve condições de cuidar dele. Wesley, 13, e Maiara, 11, são irmãos. A garota foi vítima de abuso sexual praticado pelo pai e o irmão presenciou tudo.
As demais crianças e adolescentes não disponíveis para a adoção ficam em outros abrigos da Capital, como o Lar São Francisco de Assis, Terra Fértil, Missão Resgate etc. Porém, eles ainda têm famílias - só que em situação de extrema pobreza - ou são adolescentes com risco social (precisam de apoio para serem reintegrados à sociedade). |
Amor e persistência foram os ingredientes que uniram as histórias do casal Edson de Sousa Borges, 41, e Carmem Lúcia Lima Borges, 43, à vida de dois meninos. Ele é funcionário público federal e ela monitora infantil. A chegada do primeiro filho adotivo aconteceu há cerca de sete anos, quando Carmem trabalhava numa creche em Aparecida de Goiânia, onde foi deixado um menino de 2 anos em situação de subnutrição e com feridas na cabeça para passar um final de semana com a zeladora da unidade. "A tia havia dito que buscaria o sobrinho na segunda-feira, mas nem apareceu", conta ela, que ao chegar ao trabalho na segunda-feira seguinte se encontrou com a criança P.V.L. Ao ver o estado de saúde do menor, tentou localizar a família, mas sem êxito decidiu pedir autorização à diretoria para levá-lo a um hospital. Com o tratamento finalizado, ela e o marido perceberam que o sentido de ser pai e mãe já havia brotado.
Pela frente, viria os dois anos mais lentos da vida desta família, que decidiu entrar com processo de adoção definitiva no Juizado da Infância e Juventude. Edson relembra que foram exatamente 24 meses para conseguir a adoção legal do menino. Apesar da demora na justiça, o acaso preparou uma surpresa para a família.
O casal se deparou neste período com outra criança em igual situação à de P.V.L. Só que desta vez a criança portava uma doença rara, que poderia atrofiar os seus rins. Era preciso levá-lo ao hospital. Após a liberação, o laudo detectou que R.S.S, com seis anos hoje, portava uma doença rara. A decisão foi pelo tratamento contínuo. Enquanto a futura mãe se preocupava com a saúde da criança, Edson insistia em localizar os pais. Com o fim da estadia no Hospital das Clínicas (HC), ele teria que ir para casa.
O casal decidiu levá-lo para a sua residência no Setor Bueno e prestar a assistência necessária. Em três dias de convivência perceberam que havia algo nunca experimentado: o dom da paternidade e maternidade havia aflorado mais uma vez. "Decidimos lutar pela adoção definitiva a partir deste ponto", comenta Edson.
O casal Luciana Rodrigues dos Santos, 31, Arnaldo Sousa Pires, 32, fizeram durante dois anos na fila da adoção. Há um ano, uma notícia, enfim, que os agradaria: após mais de 10 cursos de formação, uma criança que atendia o perfil de preferência estava pronta para a adoção. Um casal havia ficado com ela 15 dias e decidiu reverter a guarda da menor. "Ela estava arisca ao primeiro contato, principalmente à presença masculina", diz. Com cerca de 10 anos de casamento, eles perceberam que ali estava a primeira filha. O processo burocrático teve início até a conclusão e a adaptação da nova família não demorou a acontecer.
EXPECTATIVA - Em Goiânia, há casais que aguardam na fila de espera como é o caso do autônomo Alexandre Alves Neves, 41, e da funcionária pública Cláudia Fivello Pires, 41. Com preferência pelo sexo masculino, eles se igualam a maioria dos casais que adotam em Goiás. A idade é de 0 a três anos de idade. Apesar de já terem uma filha de oito anos pelo mesmo processo, chegou a vez do menino.
Se questionado sobre a ansiedade em conhecer logo o seu filho, Alexandre retruca: "Tentamos banir este tipo de pensamento. Aprendemos esta lição no curso do juizado". De acordo com ele, as aulas funcionam como uma espécie de pré-natal. Mas uma coisa é certa para o casal: é preciso amor para cuidar e principalmente se dedica. O autônomo diz que os pais biológicos criam expectativa sobre a gestação enquanto os adotivos focam nos trâmites. Para ele, não há diferença nenhuma do processo natural com o adotivo. "Afinal, todos exigem amor, dedicação e muita força de vontade", conclui. |