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Canção do Exílio da InfânciaMinha terra tem crianças
com histórias pra contar. As crianças daqui se dividem Entre os de cá e os de lá... Nossas ruas têm mais meninos carentes e maltratados. Mas onde encontrar o céu estrelado da canção do passado? Nuvens de fumaça embaçam o anil do Brasil, nas esquinas, nas praças, o exílio de um olhar infantil... Falta a luz do olhar materno a brilhar na infância terna pois criança na minha terra é menor abandonado, em vez do brinquedo sonhado tem o canivete empinado cortando a história do era uma vez, borrando de vermelho o verde-amarelo, o azul estrelado do lar paterno... Os meninos da rua de cá têm como prazeres e primores a fome, o abandono e as dores, enrolada em cobertores, a substituir as flores e os amores! E, assim, o Brasil dos sem teto conta a história da criança sem vez, descolorindo a bandeira da infância, a casa da dinda, o era uma vez... E do Brasil dos de lá que história tem prá contar? No lar dos privilegiados tem muito cimento armado, tem até espaço reservado pra criança brincar de correr a infância, pra criança cansar a esperança do Ser criança... Neste espaço gradeado tem jardim suspenso decorado com plantas, flores cercadas e placa plantada pintada ostentando o comunicado: 'É proibido pisar!' Tem brinquedo montado pra criança rodar... E, assim, rodando a rotina da criança na retina, na lembrança, o tempo passa acelerado sem dar tempo pra criança construir a sua infância... Mas será que a minha terra ainda tem criança vivendo a liberdade da infância? Mas onde encontrar a bonequinha de pano, o cavalinho de pau a galopar na imaginação da criança criativa no quintal? Estão bem amarrados no fio do era uma vez, contando a história de um tempo que fez da inventividade da criança o motor natural na construção da infância. E os brinquedos sonhados do Brasil dos de lá ainda dão prazeres e amores à infância televisionada dos baixinhos consumidores? O progresso chegou, um novo tempo inaugurou... Agora, é a infância da imagem, não mais da imaginação, é só ligar o fio da televisão cortando o fio da invenção. E...plim...plim... A criança sentada assiste parada ao espetáculo de sua anulação. Pois criança na minha terra ao invés da liberdade no coração é marcada com um X, sem opção, repete empre a mesma canção, repete getos, marcações, consome, não constrói nada, é driblada, manipulada, por aqueles que investem na infância sem pensar no Ser criança. Do livro 'Paisagens da Infância', Fátima Miguez, Editora Zeus, Rio de Janeiro/2003, págs 6,7 e 8. |