1. A Importância da Busca das Origens
Nossa conversa hoje vai tratar sobre o conhecimento das origens. O conhecimento, como sabemos, é uma possibilidade exclusiva dos seres humanos. Os animais, embora semelhantes a nós em alguma medida, não desenvolvem a habilidade ligada ao conhecer. O vídeo que acabei de apresentar mostra como as coisas no mundo animal ocorrem de modo mais natural e mais instintivo: apesar das imensas diferenças existentes entre uma tartaruga e um hipopótamo, a convivência e o laço que une os dois podem vir a ser bastante satisfatórios. Basta o amor, diz o vídeo. E quantas vezes ouvimos que a adoção é um ato de amor. É um ato de muito amor sim; quem tem experiência no assunto sabe que o amor é fundamental para que a adoção ocorra dentro de um ambiente favorecedor das potencialidades de uma criança. Mas só ele, não basta. Para que um laço entre duas pessoas se estabeleça e perdure é necessário algo mais. Aliás, é assim que ocorre em todas as nossas relações afetivas, quer se trate de adoção ou não. Isso porque diferentemente dos animais o ser humano é mais complexo e, portanto, muito complicado!!
A pesquisa sobre as próprias origens é inerente à experiência humana. Posso dizer que é uma NECESSIDADE, e vou explicar por quê. Buscar as origens é conhecer algo acerca de si mesmo. Temos necessidade de conhecer sobre nós mesmos e é essa uma condição importantíssima na constituição de nosso mundo interior, nossa subjetividade. Conhecimento e curiosidade é parte fundamental do desenvolvimento de toda criança. A criança em geral inaugura a pesquisa sobre as origens a partir da curiosidade sobre os bebês. Perguntas do tipo: como nasci?, Como entrei na sua barriga?, Como nascem os bebês? São exemplos de questões que surgem num dado momento da vida da criança, em geral em torno dos 3 anos de idade; essas perguntas aparecem devido à necessidade que ela tem de dar sentido e significado à sua pequena existência.
Diferentemente dos animais, todos nós humanos temos necessidade de montar uma história pessoal acerca de nossa inserção no mundo. Nossa história pessoal na verdade não é uma história dos fatos ocorridos. Ela é uma criação, uma montagem, uma “teoria” por assim dizer, que formulamos como se fosse um mito e que tem como objetivo dar significado à nossa inserção no mundo. “Nascemos de quem, quando, onde, quem são os nossos ancestrais?”. O conhecimento sobre as origens está ligado à capacidade de dar sentido a um “quebra-cabeça’ que situará o Lugar que ocupamos na vida; é um saber sobre quem somos e qual a importância que temos para aqueles que nos são muito queridos. Em outras palavras, que LUGAR nós ocupamos no desejo desses Outros. Lugar na vida de alguém. Lugar na mente de alguém.
Nascer é se ver atravessado pelas questões da vida e pelo mistério da existência. É CONHECER a posição humana e as condições necessárias à instalação de si no mundo com outros. Quando o ser humano se vê diante da impossibilidade de entrar em contato com sua história pessoal e com suas origens, é levado a um sofrimento sem contorno e, portanto vive uma experiência desesperadora. Quando não temos CONHECIMENTO em relação às nossas origens, não conseguimos montar as peças que podem nos dar as pistas necessárias para saber Quem Somos. Perdemos a experiência de humanização; não conseguiremos montar projetos de vida e de futuro. E muito provavelmente não conseguiremos amar...
A arte e a literatura trazem muitos exemplos a respeito deste tema. Na semana passada, revi o maravilhoso filme “Cinema Paradiso”. Quem não viu, vale a pena ver: o protagonista se desliga abruptamente de suas origens e durante décadas não sabe nada sobre sua família e sua cidade natal. Ele migra no sentido de buscar sucesso profissional. Consegue ser muito famoso, mas depois saberemos que, no entanto, não conseguiu estabelecer nenhuma ligação afetiva realmente significativa em sua vida.
Um outro exemplo é o de Paulinho da Viola: em um belo documentário recente sobre sua vida e sobre o tempo, ele afirma: “...não sou eu que vivo no passado, mas é o passado que vive em mim”. Há sempre um passado que habita em nós e é no contato com um outro humano, que a verdade sobre si mesmo pode aparecer. É sempre esse outro, representado por pai e mãe, ou substitutos, que podem nos auxiliar, por meio do “empréstimo de sua memória”, [1]o resgate dos significados daquilo que é originário em nossas vidas. A memória recuperada do originário é o que nos possibilitará transformar o passado em futuro e é ela que nos viabiliza aquisições importantíssimas como por exemplo: ter esperança, criatividade, lembranças e gratidão.
Essa é então uma questão crucial para todos nós, sobretudo para a criança. Podemos já antever que para a criança que é adotiva a pesquisa sobre as origens vai apresentar contornos específicos, devido às características de sua história. É sobre essa especificidade que conversarei hoje com vocês. Meu objetivo é refletirmos sobre questões que muito preocupam a família adotiva e que a leva frequentemente a solicitar ajuda de profissionais que trabalham com a adoção. Não acredito na eficácia das chaves mágicas quando se trata de assuntos que se referem à magnitude do humano e que, portanto são tão delicados. O mundo contemporâneo sofre de um excesso de técnica e eclipsa, a meu ver, a ética. Prefiro a idéia de que hoje conversamos sobre ética e adoção, por meio de um recorte, que é a importância das origens na constituição da subjetividade humana.
O tema da Revelação é um dos aspectos mais intimamente ligado ao afetivo em todo o campo da adoção. Para saber como lidar com ela não há fórmulas; só posso expressar pontos de vista, contar experiências, transmitir vivências, para que cada um de vocês possa tirar suas próprias conclusões que lhes sirvam de orientações para as respostas que darão. Assim farei.
2. Algumas idéias a respeito da Revelação –
Como expus anteriormente, toda criança tem necessidade de saber a respeito de suas origens; no entanto, conversar com ela a esse respeito nem sempre é tarefa fácil para os pais. Em um primeiro momento, contar para o filho sobre as origens é falar de sexualidade, o que implica remeter-se ao universo das experiências e valores próprios. É falar da intimidade e por isso não é fácil. No entanto, é por meio da curiosidade acerca das origens dos bebês e da sexualidade que o conhecimento da criança em relação ao mundo vai se ampliando. Portanto, a reação dos pais diante dessas primeiras formulações vai interferir no modo como ela pode vivenciar a sua própria curiosidade: se é algo bem recebido ou não. Curiosidade e CONHECIMENTO andam de mãos dadas.
É muito comum encontrarmos na clínica psicológica crianças que têm inibições importantes em relação à aquisição do conhecimento, muitas vezes seguido de baixo rendimento escolar devido às dificuldades que elas encontram em poder perguntar e conhecer livremente.
A idade da criança em que começam a aparecer as perguntas, como vocês podem ver, pode ser o momento em que ela se aproxima, através de perguntas comuns sobre a origem, da sua condição de adotiva. Mas a aproximação da condição de adotiva pode ocorrer até antes, se possível. Até porque pode ocorrer e ocorre frequentemente, que as perguntas não apareçam.
É preciso pensar em dispositivos que permitam ao bebê ser sempre defrontado com sua história. Conheço pais que, por exemplo, montaram um álbum de fotografias sobre a adoção, representando uma pequena reportagem sobre o encontro com o bebê. Constituindo-se um álbum que é a história da adoção, a criança pode manipulá-lo quase como um brinquedo, por ser um objeto com o qual ela pode ter uma relação tátil e que é a materialização do encontro. Os recursos que vocês podem utilizar para “falar da adoção sem esperar o tão temido dia” são os mais variados; contribuem para a diminuição das angústias e favorece o clima familiar que se cria ao redor do tema.
A experiência relacionada à revelação das origens a rigor poderia ocorrer de maneira mais espontânea, não fossem os aspectos que estão subjacentes a ela. Por trás da estória que revela ao filho sua condição de adotivo, existe uma complexidade de emoções e sentimentos: medos, angústias e fantasias que os pais não sabem muito bem como fazer com eles. Esse não saber como fazer, em geral aumenta muito o tamanho da tarefa que se quer desempenhar. Eu vejo em minha clínica que à medida que os pais podem lidar melhor com os próprios sentimentos envolvidos nessa experiência, a tarefa torna-se mais “light”, por assim dizer.
De que se trata então a dificuldade em revelar? Acontece que essas conversas não se referem apenas à origem, ao encontro, ao que deu “certo”, mas também ao abandono, à rejeição e às vezes à infertilidade, assuntos que precisam tempo para poder ser compreendidos tanto pela criança como pelos pais. A elaboração e a real compreensão desses temas implicam um processo dinâmico que requer o acompanhamento de um percurso singular. Esse percurso será dado por cada família, no seu tempo, no tempo de suas necessidades. É complexo porque precisaremos entender quais sentidos cada uma dessas experiências, quando presente, têm tanto para os pais quanto para a criança; e, sobretudo porque qualquer estória que se conte é montada a partir dessa mesma trama de significados. A construção da narrativa será sempre atravessada pelos valores e experiências subjetivas dos pais adotivos em relação a aqueles aspectos. Por exemplo: “quais idéias eu tenho a cerca de uma pessoa que entrega o próprio filho?”, “O que a justifica?”, “Tenho resolvido realmente os sentimentos ligados à impossibilidade de procriar?”, “Como vejo essa criança, ela é vista por mim como uma vítima ou o quê?”.
Ao responderem essas e outras questões, os pais atribuem significados e valores que, mesmo sem intenção, vão servir de “recheio” e colorir afetivamente tudo aquilo que se dirá para a criança.
Muito frequentemente há falta de dados na história da criança e não se sabe quase nada sobre sua família de origem e seus progenitores. O que informar então à criança? As concepções que cada um de vocês possuem acerca das origens serão cruciais. A maneira como qualificam os progenitores desse bebê, o fato dele ter sido entregue ou abandonado enquanto vocês mesmos o desejaram muito e não o puderam procriar; o peso que dão à hereditariedade e à infertilidade, se a criança é vista como vítima, enfim tudo vai entrar em jogo seja dito ou não dito; e essas concepções, como eu disse, vão permear toda a relação de vocês com os filhos.
É desse modo que entendo ser a revelação não um fato em si – “pronto contei!”- , mas sim um processo a ser vivido ao longo da relação com o filho adotivo; processo que vai se diversificando à medida que a criança se desenvolve e amplia a necessidade de compreensão do mundo e das relações.
Enquanto a criança é pequena, ela tem necessidade de conhecer situações com menor grau de complexidade e é importante conversar com ela respeitando sua capacidade de compreensão. Já na adolescência, as questões que surgem envolvem um grau maior dessa complexidade, exigindo uma disponibilidade maior para atender a exigência que o adolescente demanda. Nessa etapa em geral as questões giram em torno da problemática ligada à identidade: “com quem pareço? Esse nariz é de quem?” E etc. Como no caso das crianças, essas são questões de todo adolescente. Perguntar é uma maneira de CONHECER. O adolescente adotivo tem uma tarefa a mais a dar conta, uma vez que sempre vai lhe faltar alguma peça do tal quebra-cabeças.
Certa vez atendia uma paciente adulta que era adotiva; quando estava grávida dizia-me estar muito satisfeita por sentir que seu filho finalmente lhe daria a possibilidade de se ver em alguém, de poder encontrar traços físicos semelhantes ao dela...
Viver o processo ligado à revelação implica para pais e filhos entrar em contato com aquilo que deu certo e também com o que não “deu certo”; com as faltas que cada um traz para a nova relação e por isso não é tarefa fácil. Nesse sentido, vocês pais encontram-se diante de uma situação especial que a adoção coloca: repletos de amor para com o filho e ao mesmo tempo experimentando ansiedades que esse processo de revelação desencadeia.
Aqueles que puderem conviver com os sentimentos que as suas próprias experiências suscitam vão, como conseqüência, acolher as indagações do seu filho, que tem uma história que lhe pertence. Em alguns momentos, a ajuda de um profissional pode ser benéfica, no sentido de auxiliar a clarificar as dificuldades encontradas e propiciar a circulação dos afetos para que estes não fiquem silenciados.
O tema da revelação na adoção sugere tudo o que se diz, a partir do qual nascem outras questões: como fazê-la, quando, em que idade e com que palavras?
Eu gostaria de enfatizar algo extremamente importante para nós psicanalistas: não é apenas aquilo que se diz à criança que se torna importante, mas sobretudo, aquilo que não se pode dizer e que precisa ser silenciado. É o segredo e o não-dito que suscitam ansiedades das mais variadas amplitudes. Nesse sentido, se pensarmos que não há o que deveria ficar oculto, não haveria o que ser revelado.
A respeito da informação que se dará a uma criança, não há chaves exatas nem recomendações gerais, além da necessidade de aliviar a tensão familiar que persiste quando há a presença de um segredo; esse segredo gera estranheza entre a criança e os pais; estranheza que se alivia quando se compartilha o que antes era silenciado. Para isso é necessário poder respeitar também os tempos internos tanto da criança como dos pais, as necessidades psicológicas de ambos. Por isso não há como impor critérios supostamente técnicos.
Só há revelação daquilo que está oculto; quando revelamos um filme fotográfico trazemos à tona algo que se insere por detrás, mas que já está ali. Por que será então que na adoção fala-se da importância da revelação? Talvez porque essa experiência frequentemente é dolorosa e, portanto, evitada como tudo aquilo que evitamos porque dói. Talvez por que o que está ali, oculto como num filme, tem uma especificidade e sua singularidade. Especificidade de uma experiência que, para ser recuperada como memória e história, é necessária a presença de um outro humano. E será por meio da comunicação pais-filhos que se possibilita desvelar o véu do que antes estava oculto, revelando-o.
O conhecimento que pretendi transmitir hoje a vocês é que na experiência adotiva, mantém-se um jogo constante de forças equivalentes e concomitantes funcionando de maneira paradoxal. Não há o que ser revelado se não houver o segredo. E ao mesmo tempo há algo a ser des-velado, devido à especificidade da história adotiva.
Maria Luiza de Assis Moura Ghirardi – Psicóloga, Psicanalista pelo Instituto Sedes Sapientiae onde é coordenadora do Grupo Acesso – Estudos, Pesquisa e Intervenção em Adoção – da Clínica Psicológica desse instituto. Ex- Psicóloga Chefe do Serviço de Adoção da FANN – Fundación para Adopción Nuestros Niños, Quito, Equador
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